{Rádio Lápis de Mãe} Última Corrida

Entre tantos, fui o único a aceitar aquela corrida. Eu estava sem farol, e a viagem avançava noite a dentro. Quase indicava que naquela velocidade chegaríamos depois de 3 dias.

Dr. José não me permitia correr porque a carga que levava era frágil e especial. Minha marmita zerou. Refeições para mim, como motorista, eram bem raras, e meus ossos despontavam formando feridas. Um líquido morno escorria em minhas costas como um santo remédio aliviava minhas dores. Era um líquido transparente e sem cheiro que pingava aos poucos, bem curativo para minhas feridas.

Dr. José dizia que, se não fosse se registrar em sua cidade natal, ele perderia o passaporte e não poderia prestar concursos públicos, além do que a multa era alta.
Eu só não entendia a razão da dona que tanto gemia ir junto. Seria tão fácil ele dar uma corrida voando sozinho. Dona Maria ficaria com a carga frágil descansando com a mamãe dela. Isso eu não entendi. Casalzinho únido, isso percebi.

Dona Maria pedia para parar muitas vezes para se esticar, lanchar e urinar. Outros turistas ultrapassavam a gente. Eu imaginava que seríamos os últimos a chegar naquele passo.
Dito e feito! Não tinha lugar nem pelo AirBnb. O jeito foi eu, um sujeito de família simplória, levá-los pra casa de meus parentes.
Ela suspirou de gratidão lá no nosso humilde rancho.

Olhei bem em seu rosto, ela era uma adolescente sentindo dores, dores crescentes, e aquela carga escondida se desembrulhou e chorou.
Era um bebê vermelho, de cara amassada, com fome que nem eu. Visitas importantes chegaram e disseram que ele era uma majestade.
Trouxeram presentes valiosos. Mas, cá entre nós, importante mesmo sou eu que transportei a majestade.
Importante sou eu que senti a majestade dando de cabeça coroando em mim.

Importante seremos nós, quando entregarmos a majestade ao mundo no nosso sorriso, no nosso falar, agir, negociar e viver.

Não sou burro, sou “O” burro. Burro que não empacou e nem negou a carregar a Majestade.
Hoje em dia há muitos tipos de burros. Burros que empacam e se recusam a carregar a majestade. Carreguei no lombo.

Carregue no coração o Santo remédio majestoso.

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2comentários

  1. Angela Lopes - 22 de dezembro de 2017 às 09:29

    Muito lindo, de uma maneira bem sutil.
    Que já vou compartilhar posso?

    1. Lápis de Mãe - 22 de dezembro de 2017 às 13:20

      Claro que pode, Angela! Obrigada 🙂