“Nunca foi tão difícil educar uma geração” {Augusto Cury}

“Nunca foi tão difícil educar uma geração. Não há um culpado, o sistema é culpado. Todos temos nossa responsabilidade no assassinato da infância. O que me dói na alma é saber que esses jovens serão adultos num ambiente de aquecimento global, insegurança alimentar e competição predatória, e precisarão de notável capacidade de liderança e criatividade para dar respostas inteligentes a essas questões. Entretanto, infelizmente, estamos despreparando-os para esse mundo tumultuado que nós mesmos criamos.

O excesso de estímulos, atividades, brinquedos, propagandas, uso de smartphones, videogames, TV e informações escolares satura a MUC dos filhos da humanidade, gera um trabalho intelectual escravo, editando seus pensamentos em níveis jamais vistos.

Uma criança de sete anos, na atualidade, provavelmente tem mais informações do que tinha um imperador no auge da Roma antiga e do que tinham Pitágoras, Sócrates, Platão, Aristóteles, enfim, os grandes pensadores da Grécia antiga. Diante disso, como evitar que as crianças estejam mentalmente agitadas, desconcentradas, impulsivas, com dificuldade de elaborar suas experiências? Impossível.

Elas são instáveis, irritadiças, intolerantes a contrariedades, inseguras em situações novas, não se deleitam em aprender e têm enorme dificuldade de debater ideias em ocasiões minimamente estressantes.

Nós, adultos, cometemos um crime ao superestimular o processo de construção de pensamentos. Não percebemos que as crianças precisam aprender a proteger a emoção, filtrar estímulos estressantes, desenvolver o prazer por meio de atividades lúdicas, participar de processos criativos que envolvam melhor elaboração, como esporte, música, pintura & relacionamento com a natureza.

Alguns, ao verem crianças e adolescentes agitados e rebeldes a convenções, logo colocam a culpa nos pais, dizendo que são relapsos, que não colocam limites, que não transmitem valores. Sim, há pais que, como educadores, apresentam tais comportamentos doentios, mas a maioria está completamente perdida. Eles agem, mas suas palavras não têm impacto. Impõem limites, mas seus filhos repetem os mesmos erros continuamente. A causa é evidente. Devido à SPA, os jovens não elaboram sua experiências que envolvem perdas e frustrações, e, portanto, o fenômeno RAM não registra, não forma núcleos saudáveis de habitação do Eu capazes de enriquecer as características da personalidade. O seu Eu se torna engessado, desconectado, flutuante e quase sempre autossabotador.

Quando as crianças são atingidas pela SPA na primeira infância, até cinco anos, os pais ficam extasiados, acham que seus filhos são gênios. Não percebem os sintomas. Têm orgulho de contar a todos a esperteza dos filhos, que assimilam as informações rapidamente e têm respostas para tudo. Para piorar o quadro dos gênios, colocam-nos num mar de atividades (escola, aprendizado de línguas, música, esporte) e, além disso, permitem que acessem as redes sociais indiscriminadamente. Esse processo agita mais a mente deles.

Não sabem que as crianças têm de ter infância, criar, elaborar, estabilizar sua emoção, dar profundidade aos seus sentimentos, colocar-se no lugar do outro, pensar antes de reagir, aquietar a mente; caso contrário, terão uma emoção instável, insatisfeita, irritadiça, intolerante a contrariedades e claro, hiperpensante.

Os anos passam, e, na segunda infância, pré-adolescência e adolescência, os pais começam a perceber que algo está errado. O gênio desapareceu. Seus filhos querem cada vez mais para sentir cada vez menos, são insatisfeitos, indisciplinados, têm dificuldade de expressar gratidão, sua autoestima (maneira como se sentem) está combalida, sua autoestima (maneira como se veem) está fragilizada, não aceitam “não”, são impacientes, querem tudo na hora.

É fundamental que os pais não deem presentes e roupas em excesso aos filhos que nem os coloquem em múltiplas atividades. É igualmente fundamental que conquistem o território da emoção deles e saibam transferir o capital das suas experiências, ou seja, que lhes deem o que o dinheiro não pode comprar. Não devem deixa-los o dia inteiro conectados em redes sociais e usando smartphones. A utilização ansiosa desses aparelhos pode causar dependência psicológica como algumas drogas. Tire o celular deles por um dia e veja como reagem; alguns se deprimem. Além disso, crianças e adultos jamais deveriam usá-los em excesso à noite ou dormir ao lado desses aparelhos, pois sua tela produz um comprimento de onda azul que dificulta a liberação, no metabolismo cerebral, de substâncias que induzem o sono.

Pais que superprotegem seus filhos e lhes dão tudo o que pedem colocam combustível na SPA destes. Como digo no livro Pais brilhantes, professores fascinantes, lembre-se de que bons pais dão presentes e suportes para a sobrevivência dos seus filhos, mas pais brilhantes vão muito além: dão a sua história, transferem o mais excelente capital, o das experiências. Muitos pais perdem seus filhos porque não conseguem fazer da relação uma grande aventura.”

Augusto Cury

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3comentários

  1. Dyonne - 10 de janeiro de 2017 às 20:49

    Melhor post!
    Vejo pais todos orgulhosos quando o filho, (geralmente ainda bebe) sabe ligar o telefone, um app, jogar um joguinho…que tristeza!!! 0(
    Infelizmente muitos pais dao presentes pra compensar a fala de presenca… 0(

  2. Happy Mom - 11 de janeiro de 2017 às 11:44

    Assusta-me esta dependência cada vez mais crescente dos equipamentos tecnológicos que nos desligam das pessoas que nos rodeiam. Não é fácil viver num mundo tão dependente de redes sociais, da internet e do contacto à distância. Desde que fui mãe que este assunto cada vez mais me preocupa e cada vez opto por me desligar de tudo o que é tecnologia quando o meu filho chega a casa da escola. O tempo, a partir daí, é para o meu filho. É aprender a desligar do que não é tão importante para a realidade familiar. Custa mas a recompensa no futuro será a melhor do mundo!

  3. Rosana Alves - 12 de janeiro de 2017 às 09:15

    Meninas,
    Excelente post. Qualidade e informações absolutamente pertinentes e necessárias.